Reflexão Diária – 11 de maio de 2012 – Jo 15, 12-17: Amai-vos como eu vos amei

Sexta-feira – 11 de maio

Jo 15, 12-17: Amai-vos como eu vos amei

 

 

Começou o reino do amor e foi dissolvida a escravidão do pecado e da morte. Na cruz do Calvário apareceu a nova vida para toda a humanidade; a salvação nos é concedida, realiza-se a reconciliação com o Pai. Na cruz refulge a luz do perdão e do verdadeiro amor, iluminando a todos, sem restrição. “Este é o dia que o Senhor fez para nós” (Sl. 117,24), “dia muito diferente daqueles que foram estabelecidos desde o início da criação do mundo e que são medidos pelo decurso do tempo. Este dia é o início de uma nova criação” (S. Gregório de Nissa).

 

Este dia é a prova de que Deus nos ama. Ele envia e entrega seu Filho à morte, levando o Apóstolo s. Paulo a exclamar: “Nada nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus nosso Senhor”. O sol deste dia nos permite entrever, na alternativa de condenar ou salvar, que Deus tomou a parte de eternamente nos salvar. S. Cirilo de Alexandria coloca nos lábios de Jesus: “Como Filho e herdeiro do Pai, eu liberto os homens da escravidão, eu transformo a lei que condena em graça que justifica”.

 

É o dia da nova Aliança, válida para nós, mediante a fé em Cristo. O amigo e servidor, não se opõem, estão unidos, como Jesus, igualmente, o Filho bem-amado e servidor. O verdadeiro homem é criado pelas palavras do Mestre: “Amai-vos como eu vos amei”. As turbulências se afastam e ele não se sente separado e isolado. Professa que o próximo do outro é ele mesmo. Ama, une-se a Jesus e o reconhece no aprisionado, no abandonado e no sofredor. É a nova criação, cuja lei maior é o amor. O homem novo, criado à imagem e semelhança de Deus, se lê como existência em relação, jamais se enclausurando na galera do egoísmo e das veleidades. Abandonando a arrogante autonomia irracional, que significaria auto-deificação, ele compreende que “a comunhão com Deus é vida” (s. Irineu) e que “uma vida sem eternidade é indigna do nome de vida. Verdadeira vida é só a vida eterna” (S. Agostinho).

 

Este dia é o dia da liberdade, pois como assegura o filósofo: “As ações de um homem não podem ser mais livres de quanto não o seja o seu próprio eu” (M. Scheler).  Presença de imortalidade, o homem novo participa da liberdade que Deus lhe dá, visto que Deus o quer livre, além do que ele possa imaginar. E liberdade é vida, que não se define, mas que se experimenta como contínua superação. Ele alcança, “às apalpadelas”, a sua identidade, vivificado pelo dinamismo do amor, que, fecundado pela esperança, o transporta à inefável sabedoria divina. Vida plena, participada pelo poeta, pelo criador da beleza, por aquele que busca a verdade, pela mãe que consola e gera espiritualmente seu filho.

Reflexão Diária – 10 de maio de 2012 – Jo 15, 9-11: Assim como o Pai me amou também eu vos amei

Quinta – feira – 10 de maio

Jo 15, 9-11: Assim como o Pai me amou também eu vos amei

 

Jesus é fonte e modelo do nosso amor fraterno. Ele próprio proclama: “Se praticais o que vos ordeno, vós sois meus amigos”. Compromisso de aliança e de união. Mandamento e amor, à primeira vista, parecem estranhos um ao outro. Mas o amor de Jesus não é mero sentimento. Nasce de sua generosa e gratuita doação de vida. Pois, provindo do seu coração aberto na cruz, ele invade nosso amor fraterno. E, superando os limites mais altos de nossos desejos, nos introduz na grandeza do seu amor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”.

 

Compartimos o fluxo do amor que o Pai e Ele têm para com todos os que lhes pertencem e que leva o Pai a enviar ao mundo o seu Filho Unigênito. Eis que a vontade do Pai se realiza: o amor divino é transmitido a todas as criaturas, para que, participando dele, elas proclamem a unidade trinitária. Por isso, declara Jesus: “Minha alegria estará em vós e vossa alegria será plena”.  E nós nos abeiramos da plenitude da graça, da vida, da paz e da alegria, existentes em Deus. O amor do Pai e do Filho se desvela e, pela ação do Espírito divino, nos penetra e nos arrasta.

 

Os Santos Padres entoam loas ao amor de Cristo na pregação e em seus ensinamentos. S. João Crisóstomo exclama: “Olha como Jesus cuida dos que o crucificam e o insultam com furor. Eis Jesus falando com o Pai e dizendo: “Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. Mais tarde ele envia seus discípulos para anunciar-lhes a Boa-Nova do Evangelho. Imitemos esta caridade no seguimento do Senhor”. O Senhor inspira a vida dos seus discípulos, a ponto de eles estarem prontos a dar a vida por seus irmãos. Eles se unem ao Senhor na entrega de sua vida em benefício de toda a humanidade. Na doação do Mestre o amor fraterno é alimentado e revigorado.

 

S. João Clímaco conta ter visto, “um dia, três monges, humilhados da mesma maneira e no mesmo momento. O primeiro se sentiu cruelmente ofendido, perturbou-se, mas permaneceu em silêncio. O segundo provou alegria pessoal, mas tristeza pelo ofensor. O terceiro pensou unicamente no dano do seu próximo, e chorou cheio de compaixão. Um estava sob o influxo do temor, o outro animado pela esperança da recompensa, o terceiro pelo amor”.

Reflexão Diária – 06 à 09 de maio de 2012 – Jo 15, 1-8: Parábola da verdadeira vide

Domingo – 06 de maio = quarta-feira-09 de maio

Jo 15, 1-8: Parábola da verdadeira vide

 

Mais do que uma parábola, Jesus apresenta uma alegoria em que ele é o tronco, os ramos são os seus seguidores e o Pai é o agricultor à espera dos frutos da vinha. Ele é a verdadeira videira, única e una. Os ramos produzem frutos, caso permaneçam unidos a ele. A seiva, que a vivifica, é o sangue do Senhor derramado por nós e que nos é dado na Eucaristia: “Este é o cálice do meu sangue”. Assim, entre o discípulo e a eucaristia se estabelece uma relação íntima e essencial, cujo primeiro efeito, descrito repetidas vezes pelo Senhor, é “permanecer” “em Mim”. A questão de estar “em Mim ou sem Mim” é levantada pelo próprio Senhor. Estar nele é crer nele, acolher a sua palavra e viver a comunhão do amor fraterno.

 

O objetivo de Jesus é engendrar no coração dos discípulos o amor a Deus e aos irmãos. Escreve s. Agostinho: “Ele não poderia ser a videira, se não fosse homem. Mas, ele não poderia comunicar esta virtude aos ramos, se não fosse também Deus”. Seus discípulos, só produzirão frutos, caso estejam unidos a Jesus, o Verbo encarnado, crucificado e glorificado. Ele é lugar de ressurreição, lugar pentecostal, onde o homem se eleva, iluminado, até à contemplação de Deus.  Porém, caso não permaneça unido a Jesus, o ramo não recebe a seiva, morre, é cortado e lançado fora.

 

O discípulo é instado a “permanecer” na Palavra, na Luz e no Amor do Cristo, pois ele quer permanecer em nós por suas palavras e pelo ensinamento interior do Espírito Santo. A reciprocidade de “vós em Mim e Eu em vós” não expressa uma habitação qualquer. É a mútua inabitação de Deus nos discípulos de Jesus e deles em Deus: “Nós estamos nele; e através dele, o que nós somos está em Deus” (S. Hilário de Poitiers).  Presença salvadora, em que o discípulo permanece em Cristo, graças à profissão de fé e à comunhão no amor. União tão íntima e vigorosa que leva s. Atanásio a exclamar: “O Filho de Deus se tornou portador da carne, para que o homem pudesse se tornar portador do Espírito divino”.

 

Pelos frutos do amor fraterno somos reconhecidos como discípulos de Jesus e nele glorificamos o Pai. À diferença do Povo de Deus, que dele se afastou e que foi, por vezes, “devastado pelo javali” (Sl 80, 14), os seguidores de Jesus confirmam sua identidade produzindo dignos frutos de amor e de misericórdia. Crescimento contínuo, assegurado pelo Mestre, que lhes transmite suas palavras e lhes comunica o seu amor e o seu Espírito. Assim como o Filho permanece no Pai e dá fruto, o mesmo sucederá com os que permanecem nele. Se as palavras de Jesus são as de Deus, as palavras e obras dos discípulos serão as de Jesus.

Reflexão Diária – 04/05/2012 – Jo 14, 1- 6: Não se perturbe o vosso coração

Sexta-feira – 04 de maio

Jo 14, 1- 6: Não se perturbe o vosso coração

 

O tom das palavras de Jesus é de apaziguamento. Ele deseja tranqüilizar a consciência dos Apóstolos ainda perturbada pela questão: “Seria eu o traidor?” Ou pelo anúncio da negação de Pedro. Muito mais pelo fato da perspectiva de sua futura partida. Jesus transmite serenidade. Querendo consolidar neles a fé e a esperança, exorta: “Crede em Deus… e também em mim”. Equivalência, que não se justificaria caso Jesus não fosse Deus. Só em Deus se pode e se deve crer de modo absoluto. Finalmente, ele lhes indica o objetivo visado: preparar “na casa de meu Pai” um lugar para todos os que, crendo em mim, tornaram-se ”filhos de Deus”.

 

No Antigo Testamento, a Casa de Deus era o Templo, no qual Deus fizera sua “morada”. O mediador escolhido por Ele, Moisés ou o Sumo Sacerdote, tinha acesso, uma vez por ano, ao Santo dos Santos. Esta “tenda do encontro” era modelo da realidade celeste e divina, penetrada por Jesus em seu sacrifício na cruz.

 

As palavras “na casa do Pai” sugerem interiorização e intimidade com Deus. Fonte de paz e de serenidade. Pois somos introduzidos na feliz e misericordiosa eternidade do Pai celestial. Ao dizer “muitas” moradas, ele designa um número ilimitado, ou seja, “um lugar” para cada um. Todos participarão da família de Deus, vivendo verdadeira e profunda comunhão com ele, segundo os diferentes graus de vida espiritual. Não se pode, no entanto, esquecer o que é dito pelo próprio Senhor: “Eu sou o Caminho” e “ninguém vem ao Pai a não ser por mim”. Por sua mediação.

 

S. Agostinho destaca o anseio palpitante, presente no coração do homem: “Ele aspira, principalmente, duas coisas: de início, o conhecimento da verdade, o que lhe é próprio; em seguida a continuação de sua existência, o que é comum a todas as pessoas. Cristo é o Caminho para se chegar ao conhecimento da verdade, pois ele mesmo é a Verdade. Cristo é o Caminho para se chegar à Vida, pois ele é a Vida”. Ele é o caminho para o Pai por ser a Verdade e a Vida. Ele é nosso divino mediador, que nos conduz a Deus, comunicando-o. A palavra de Jesus torna-se, então, prenhe de sentido ao dizer: “Não se perturbe o vosso coração”!

Reflexão Diária – 03/05/2012 – Jo 14, 6-14: Eu sou o caminho, a verdade e a vida

Quinta-feira – 03 de maio

Jo 14, 6-14: Eu sou o caminho, a verdade e a vida

 

 

De modo direto e negativo e em sentido exclusivo, Jesus afirma ser o caminho para o Pai: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim”, por minha mediação. Ele é a porta estreita que se abre para a verdade e para a vida. Não se refere ao caminho geográfico, mas à prática de uma vida orientada para Deus. Somos peregrinos a caminho da Cidade celeste. Como o Povo eleito, mesmo após ter-se estabelecido na Terra Prometida, nós nos reconhecemos na condição de peregrinos da Páscoa. Ideia avivada e celebrada nas “subidas” anuais a Jerusalém e concretizada na vinda do próprio Deus pela encarnação de seu Filho Jesus.

 

Ainda hoje, os judeus designam a “moral” com a palavra “halaká”, caminhar. E é caminhando com Jesus que os discípulos conhecem a prática de sua vida, sua fidelidade ao Pai e seu amor incomensurável aos irmãos. Seguindo-o, não irão tropeçar e estarão seguros, pois como diz s. Agostinho: “Por Jesus Cristo vós chegais a Jesus Cristo. Por Jesus Cristo homem, vós chegais a Jesus Cristo Deus: pelo Verbo feito carne, vós chegais ao Verbo que no começo era Deus”. Jesus é o caminho. Porém, ele não afirma ser o caminho para a Verdade, mas sim para o Pai, precisamente, porque ele é a Verdade e a Vida. A própria estrutura da frase, em “chiasma”, as situa em relação ao caminho. “A Verdade e a Vida são atribuídas a Cristo” (S. Agostinho).

 

Por ser a verdade, Jesus conduz aoPai e introduz os discípulos em sua vida divina. Eles participam da verdade e “ela vos libertará”, diz o Mestre. A liberdade coincide com a vida em Cristo. A liberdade é entendida como fidelidade, docilidade, doação ao Pai. Ao se auto-superarem e ao se transcenderem os discípulos se abrem à verdade (alétheia) de sua vida em Deus, comprazendo-se da intimidade do amor existente entre o Pai e o Filho Jesus. Realiza-se na “synergeia”, cooperação do homem com Deus, a união com o Senhor, sentido da vida cristã e se é introduzido no cerne do mistério da encarnação do Verbo divino.

 

Verdade é vida em comunhão com Deus e comunhão de vida com os irmãos. A vida é, por excelência, dom de Deus. Não nos permite envelhecer em nossa união com ele e com os irmãos. É sempre nova a nos impele a crescer e a nos formar segundo Cristo e no Cristo. Não é passível de objetivação, nem se define. Ela é experimentada no processo de purificação (kathársis), força renovadora contínua, que nos impele a progredir nos mistérios de Deus. Porém, é no silêncio e graças à luz divina que tocamos as franjas da insondável vida do Senhor Jesus, revelada e comunicada a nós em seu inefável amor.

 

Dá-se não só uma adesão mística individual. Ela é também eminentemente comunitária. Pois conhecer a própria possibilidade de se relacionar com Deus é dispor-se para a comunhão com os irmãos, deixando-se invadir e se transformar pela vida de Cristo. A prática das virtudes e a dependência originária à vontade divina na ordem da palavra, do querer e do ser engendram o dinamismo interior para trilhar o “caminho” do encontro com o Pai e da acolhida ilimitada do próximo. Participamos, então, sempre mais da vida divina, pois “a glória de Deus é a vida do homem, e a vida do homem é a visão de Deus” (s. Irineu).

Reflexão Diária – 03/05/2012 – Jo 14, 6-14: Eu sou o caminho, a verdade e a vida

Quinta-feira – 03 de maio

Jo 14, 6-14: Eu sou o caminho, a verdade e a vida

 

De modo direto e negativo e em sentido exclusivo, Jesus afirma ser o caminho para o Pai: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim”, por minha mediação. Ele é a porta estreita que se abre para a verdade e para a vida. Não se refere ao caminho geográfico, mas à prática de uma vida orientada para Deus. Somos peregrinos a caminho da Cidade celeste. Como o Povo eleito, mesmo após ter-se estabelecido na Terra Prometida, nós nos reconhecemos na condição de peregrinos da Páscoa. Ideia avivada e celebrada nas “subidas” anuais a Jerusalém e concretizada na vinda do próprio Deus pela encarnação de seu Filho Jesus.

 

Ainda hoje, os judeus designam a “moral” com a palavra “halaká”, caminhar. E é caminhando com Jesus que os discípulos conhecem a prática de sua vida, sua fidelidade ao Pai e seu amor incomensurável aos irmãos. Seguindo-o, não irão tropeçar e estarão seguros, pois como diz s. Agostinho: “Por Jesus Cristo vós chegais a Jesus Cristo. Por Jesus Cristo homem, vós chegais a Jesus Cristo Deus: pelo Verbo feito carne, vós chegais ao Verbo que no começo era Deus”. Jesus é o caminho. Porém, ele não afirma ser o caminho para a Verdade, mas sim para o Pai, precisamente, porque ele é a Verdade e a Vida. A própria estrutura da frase, em “chiasma”, as situa em relação ao caminho. “A Verdade e a Vida são atribuídas a Cristo” (S. Agostinho).

 

Por ser a verdade, Jesus conduz ao Pai e introduz os discípulos em sua vida divina. Eles participam da verdade e “ela vos libertará”, diz o Mestre. A liberdade coincide com a vida em Cristo. A liberdade é entendida como fidelidade, docilidade, doação ao Pai. Ao se auto-superarem e ao se transcenderem os discípulos se abrem à verdade (alétheia) de sua vida em Deus, comprazendo-se da intimidade do amor existente entre o Pai e o Filho Jesus. Realiza-se na “synergeia”, cooperação do homem com Deus, a união com o Senhor, sentido da vida cristã e se é introduzido no cerne do mistério da encarnação do Verbo divino.

 

Verdade é vida em comunhão com Deus e comunhão de vida com os irmãos. A vida é, por excelência, dom de Deus. Não nos permite envelhecer em nossa união com ele e com os irmãos. É sempre nova a nos impele a crescer e a nos formar segundo Cristo e no Cristo. Não é passível de objetivação, nem se define. Ela é experimentada no processo de purificação (kathársis), força renovadora contínua, que nos impele a progredir nos mistérios de Deus. Porém, é no silêncio e graças à luz divina que tocamos as franjas da insondável vida do Senhor Jesus, revelada e comunicada a nós em seu inefável amor.

 

Dá-se não só uma adesão mística individual. Ela é também eminentemente comunitária. Pois conhecer a própria possibilidade de se relacionar com Deus é dispor-se para a comunhão com os irmãos, deixando-se invadir e se transformar pela vida de Cristo. A prática das virtudes e a dependência originária à vontade divina na ordem da palavra, do querer e do ser engendram o dinamismo interior para trilhar o “caminho” do encontro com o Pai e da acolhida ilimitada do próximo. Participamos, então, sempre mais da vida divina, pois “a glória de Deus é a vida do homem, e a vida do homem é a visão de Deus” (s. Irineu).

Reflexão Diária – 02/05/2012 – Jo 12,44-50: Jesus, caminho para o Pai

Quarta-feira – 02 de maio

Jo 12,44-50: Jesus, caminho para o Pai

 

 

Jesus, Verbo de Deus, em unidade trinitária segundo o desígnio salvífico do Pai, veio até nós para comunicar a todos Luz e Vida. Afirma o divino Mestre: “Quem crê em mim não é em mim que crê, mas em quem me enviou. E quem me vê, vê aquele que me enviou”. Ele tece um paralelismo entre o “crer” e o “ver”, visando conduzir seus discípulos à visão da fé. Quem está diante de Jesus está na presença do próprio Deus. S. Cirilo de Alexandria coloca suas palavras nos lábios do Senhor ao comentar: “Quando vós discípulos credes em mim, eu que me tornei homem como vós e para vós, vós não credes estar colocando vossa fé em um homem: pois eu sou Deus por natureza, embora reconhecido semelhante a vós. O Pai está em mim e porque eu sou consubstancial ao Pai, vossa fé chega até o Pai”. Luz e vida do mundo, Jesus é caminho para a feliz e misericordiosa eternidade do Pai.

 

Antes, a norma orientadora, erigida como juiz, era a Lei. Agora, no Sermão da Montanha, ao inaugurar a sua pregação, Jesus plenifica a Lei da Antiga Aliança com as “palavras” por Ele proclamadas. À primeira vista nós nos encontramos diante de dois modos diversos de encarar a vida que se opõem e se superam. Ao ler a Lei e ao ouvir Jesus, olhando-os mais de perto, percebemos que ambos, apesar de expressarem tensões, se harmonizam e se realizam na mensagem do Evangelho. Se a Lei é uma preparação, o Evangelho é a proclamação da Palavra eterna e inefável do Pai.  O Filho Jesus, em sua encarnação redentora, é a revelação plena do amor divino à humanidade. O mistério escondido desde séculos se manifesta em seu esplendor a todos os que se dispõem a acolhê-lo. À fé une-se o empenho constante da parte do homem no desejo de progredir ao infinito na penetração do mistério do amor de Deus

 

O caminho é Jesus, Deus perfeito, que assumiu todas as imperfeições e limitações provenientes do pecado. “Ficamos pasmos, diz s. Máximo, ao ver como o finito e o infinito se encontram unidos nele e se manifestam um ao outro mutuamente”. Nele penetramos na insondável sabedoria divina e nosso coração se inflama de ardente amor. Permanecemos como que suspensos na presença do absolutamente Outro, em contínuo diálogo, e o ouvimos dizer: “Não falei por mim mesmo. Mas o Pai, que me enviou, me prescreveu o que dizer e de que falar e sei que seu preceito é vida eterna”(v.49). Palavra a nos fortalecer na esperança da visão de Deus, perceptível na Luz incriada, já manifestada aos três Apóstolos, no monte Tabor.

Reflexão Diária – 01/05/2012 – Jo 10, 22-30: Jesus se declara Filho de Deus

Terça-feira – 01 de maio

Jo 10, 22-30: Jesus se declara Filho de Deus

 

 

É a festa da Dedicação do Templo. Comemora-se a reconquista do Templo por Judas Macabeu, no ano 164 a.C. Neste mesmo Templo, encontramos “Jesus andando sob o pórtico de Salomão. Os judeus, então, o rodeiam” e o interrogam. A curiosidade deles é grande, não menos que a maldade em seus corações. Por isso, perguntam se Ele é de fato o Messias. E se o é porque, então, ele se apresenta igual a Deus. Primeiramente, Jesus os convida a ter confiança no Pai e, em seguida, voltando-se para seus discípulos, lança um apelo para que creiam em sua pessoa. O detalhe salientado pelo Evangelista de que “era inverno”, leva s. Agostinho a observar de “que o coração de seus ouvintes estava gelado, pois não se deixavam aquecer pelo Fogo divino, do qual só se aproxima pela fé”. Mas a esperança é para todos. Seus ouvintes exclamam: “Até quando nos manterás em suspenso?” Eles se questionam e chegam a pedir que Jesus lhes fale “abertamente”, opondo-se, talvez, ao fato de ele falar “em parábolas”. Jesus é cauteloso. Não diz ser o Cristo para que não surjam mal-entendidos, pois entre eles era forte a expectativa da vinda de um Messias guerreiro e político.

 

“Já vo-lo disse, mas não acreditais. As obras que faço, em nome de meu Pai, dão testemunho de mim”. Portanto, bastavam-lhes os sinais realizados por Ele, como a cura do cego e tantos outros milagres, presentes ao longo de seu ministério público. Tais sinais, realizados em nome do Pai, dão testemunho de quem é Ele. Mesmo assim, eles não acreditam. Pior ainda. Querem apedrejá-lo, “porque sendo homem, dizem eles, tu te fazes Deus”. Ora, é exatamente o que ele é: o Filho de Deus feito homem.

 

Os que pertencem ao seu rebanho escutam sua voz e o seguem. “A eles, diz Jesus, eu dou a vida eterna” e eles jamais se perderão. Ele os recebeu do Pai e ninguém poderá arrancá-los de suas mãos. Palavras que nos tocam e nos transmitem confiança. O colóquio se encerra com a breve declaração de Jesus: “Eu e o Pai somos um só”. Ao pronunciá-la, seus acusadores sentem eriçarem-se-lhes os cabelos de indignação. Porém, Jesus, longe de se retratar, estende a filiação divina a todos os que o acolhem. Aliás, ele veio ao mundo, justamente, para que eles dela participassem. Essencial é abrir-se à Luz, “afastar-se das trevas” e não permanecer nela, como fazem seus adversários. Por isso, aos seus seguidores, Jesus concede a participação na vida divina por filiação adotiva.

 

A revelação do mistério trinitário, do qual Jesus procede, vai de par com a revelação do mistério de nossa união divinizante. S. Agostinho fala do Espírito Santo comunicado a nós por Jesus: “Ele nos torna templos, nos diviniza e nos faz perfeitos”.

 

Reflexão Diária – 30/04/2012 – Jo 10, 1-10: O Bom Pastor -II

Segunda-feira – 30 de abril

Jo 10, 1-10: O Bom Pastor -II

 

Muitas vezes, o Antigo Testamento se refere a Deus como pastor de Israel, seu povo. O Messias é também apresentado como o Pastor do Povo de Deus. O próprio Jesus diz ser o Bom Pastor. Ele arrisca sua vida para procurar e salvar a ovelha desgarrada. No presente relato, existem alguns elementos antitéticos: ao único bom Pastor se opõem o ladrão e o estrangeiro ou o mercenário. O bom Pastor entra pela porta e as ovelhas reconhecem a sua voz. E ele as conhece pelo nome, na qualidade de filhos. Uma relação de familiaridade e mesmo de ternura se estabelece entre ele e as ovelhas. O pastor as conduz para fora e elas o seguem, com total confiança. Mas não seguem a um estranho ou mercenário. Pelo contrário, rejeitam-no por não reconhecerem a sua voz. Ele entrou no redil, furtivamente. Provavelmente, movido pelo egoísmo, ele quer levar o rebanho a um passado sem vida.

 

“Eu sou a porta”, exclama Jesus. Por ele se chega às pastagens, às riquezas dos dons de Deus. Por ele se alcança a salvação e a vida eterna. As ovelhas entram e saem, livremente, na tranquila liberdade dos filhos de Deus. Ao contrário do mercenário, ele ama as suas ovelhas e está pronto a dar a vida por elas. Pois o mercenário “vem só para roubar, matar e destruir” e, em ocasião de perigo, foge abandonando-as.

 

O bom Pastor conhece as suas ovelhas porque as ama. Ele é bom em si mesmo, não em vista de uma finalidade ou de qualquer tipo de retribuição. Sua bondade é inesgotável, nada a cerceia. Ela é infinita. Dela participamos na medida em que deixamos que ela faça parte de nossa vida. Então, soa em nossa alma a melodia do amor e da bondade: “Como o Pai me conhece, e eu conheço o Pai, eu dou minha vida pelas ovelhas”. Total doação do Senhor. Grandeza indizível que esvazia nosso coração de suas paixões e desejos desordenados. Força do alto que permite emergir, no calmo lago de nossa alma, a face do Senhor e a verdadeira face de nossos irmãos. S. Gregório Magno faz eco às palavras de Jesus: “A prova de que eu conheço o Pai e o Pai me conhece a mim está em que eu entrego minha vida por minhas ovelhas. Ou seja, na caridade com que morro por minhas ovelhas, manifesto meu amor pelo Pai”.

 

Unidos a Jesus, no amor ao Pai, tornamo-nos “bom pastor” e seremos capazes de dar a vida, na caridade, pelos nossos semelhantes. Para além do espaço e do tempo, respira-se o ar da ressurreição. Observa Isaac de Nínive: “Quem encontrou o amor e o vive, se nutre de Cristo cada dia e a toda hora, e se torna imortal, pois Deus é amor”.

Reflexão Diária – 29/04/2012 – Jo 10, 11-18: O bom Pastor dá a vida por suas ovelhas

Domingo – 29 de abril

Jo 10, 11-18: O bom Pastor dá a vida por suas ovelhas

 

O tema da vida pastoril é comum ao povo judaico. Já no princípio da história bíblica, Deus é chamado de Pastor. Também os patriarcas e os próprios reis recebem o título de “pastor”. No Evangelho, Jesus descreve o seu ministério em termos de pastoreio e, na hora de sua morte, se compara ao Cordeiro imolado e ao pastor separado das ovelhas pela morte violenta. No texto, ora considerado, em oposição ao mercenário, ele declara ser o bom Pastor, pronto a dar a vida por suas ovelhas, enquanto o mercenário, à chegada do lobo, foge e abandona o rebanho. Ao invés, entre o bom Pastor e as ovelhas, seus seguidores, medram profundos vínculos de comunhão, cujas raízes nascem de sua comunhão com o Pai.

 

Porém, mesmo os ministros do bom Pastor, diz s. Agostinho, podem ter uma alma de mercenário. Embora busquem um bem, a escolha dos meios, por vezes, não é boa e pode levá-los a uma ação má. São traídos pelas próprias emoções. Pois “são elas, diz s. Agostinho, que colocam em movimento nossas almas”. Neles, não há serenidade e equilíbrio. Os maus pastores fogem de si mesmos e, diante das dificuldades e perigos, por temor, abandonam as ovelhas. “E temer, diz s. Agostinho, é espiritualmente fugir”. Urge adequar-se ao apelo do Senhor: desejar a unidade interior, fonte de paz e de gestos de ternura e de fidelidade. Estará, então, sintonizado com a atitude do bom Pastor, que ama a todos e não despreza nem abandona quem quer que seja.

 

O fato de as ovelhas conhecerem a voz do Pastor e retornarem ao redil assinala a relação de solicitude familiar entre o pastor e suas ovelhas. Vale dizer, entre Cristo e seus seguidores existe uma relação única de verdadeira solidariedade, entendida por S. Gregório de Nazianzo como a inclusão nele de toda a humanidade regenerada. Pois “o que não foi assumido, não foi salvo”. O mesmo destaca s. Atanásio ao dizer: “Deus se fez homem, para que o homem se tornasse Deus”.

 

O Senhor não exclui ninguém. Seu carinho se estende a todos. É o bom Pastor, que conhece cada um de nós, chamando-nos pelo nome. A paz e a confiança envolvem nossos corações e, protegidos por ele, nos achegamos ao regaço de seu ardente amor. Porque, segundo s.. Agostinho, “uma exigência se impõe ao bom Pastor: colocar os próprios bens em benefício de todas as ovelhas e, se necessário for, dar a vida por elas”. S. Cirilo de Alexandria, “ao se perguntar como um pastor pode ser considerado bom, responde que ele é bom quando está preparado a dar a sua vida em defesa de sua ovelha. O que foi plenamente realizado por Jesus”. Mas, interroga-se: “Escuto eu atentamente a voz do bom Pastor e sou obediente à sua voz?”